quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Manifesto contra a cultura que permite a exploração e sofrimento dos animais.

Este texto foi originalmente escrito em resposta a críticas que ativistas pelos direitos animais sofreram depois de realizarem manifestos contra a Expointer, uma grande feira de exposição de animais. Aqui o texto está reeditado na forma de um “manifesto geral” contra este tipo de práticas que promovem o uso e exploração de animais. O texto original, contextualizado ao momento em que foi escrito encontra-se neste link.

Notas:
 A palavra “animal” e “animais” aqui é usada no senso comum, pois o correto seria (demais) animais (ler notas no final).
A palavra "vegetariano" aqui utilizada pode significar vegetariano e/ou vegano, pois parte de uma noção ético-filosófica nos hábitos alimentares e outras atividades humanas.
        
Manifesto contra a cultura que permite a exploração e sofrimento dos (demais) animais.

         Para muitas pessoas nossas atitudes de defesa dos animais e nossas críticas e manifestações às atividades que permitem o sofrimento e exploração animal são consideradas inoportunas e mesmo ridículas.  Sim, nossas atitudes são inoportunas para muita gente, como em outros tempos outras atitudes causaram estranheza. Foi assim quando as mulheres saíram às ruas pedindo espaço e direitos políticos, ou quando trabalhadores exigiram novos direitos e tem sido assim a cada transformação cultural. Muitos outros exemplos poderiam ser citados para mostrar que estamos diante de uma grande transformação cultural.
Não queremos agredir, mas temos uma causa. Estamos aprendendo a construir um mundo diferente daquele em que temos vivido onde os animais são vistos como objetos de consumo humano. Também estamos aprendendo a criar espaços num mundo que ainda não nos reconhece e não somos uma unidade entre nós, porque ainda não temos um espaço neste universo cultural que compartilhamos e porque somos todos singulares. Mas dentro de nossa pluralidade há um consenso: animais foram feitos para serem livres e não para serem explorados e sacrificados pelos humanos. Como os animais não podem se defender da escravidão e exploração, muitas vezes cruel, a que têm sido submetidos, nos unimos neste ideal pelos animais e não contra aqueles que agem e pensam diferente de nós. Apenas queríamos que a humanidade assumisse sua responsabilidade para com estes seres mais vulneráveis e para com a natureza degradada e modificasse sua postura de dominação.

Seria mais fácil se pudessem também nos ouvir e compreender e ver que temos uma causa libertária e queríamos que entendessem que nosso alvo é acabar com o sofrimento de seres indefesos e não criar novas disputas ou celeumas. Fazemos parte deste mundo “não-vegetariano” e sabemos como é a ótica antropocêntrica (especista) na qual o mundo ocidental está calcado. Agora pedimos que vejam a nossa ótica e entendam porque agimos assim. Se não estivesse em jogo a vida de animais indefesos agiríamos diferente. Na realidade não nos importamos com os hábitos dos outros, mas gostaríamos de acabar com o sofrimento dos animais, que são mais indefesos e vulneráveis, por isto nossas ações. Elas não estão relacionadas diretamente ao que as pessoas fazem ou deixam de fazer, mas ao que acontece a animais que são injustamente explorados e maltratados.

Lamentamos que alguns nos vejam como numa disputa de ideais ou de qualquer tipo. Também estamos aprendendo a construir outro espaço onde nossos hábitos possam ser recebidos e respeitados e estamos aprendendo a criar este espaço, o que nem sempre é fácil para todos. Muitas vezes somos agredidos simplesmente por sermos diferentes, num mundo que ainda não aprendeu a nos respeitar e incluir. Somos apenas uma minoria que gostaria de não mais ver seres indefesos sofrerem para satisfazer necessidades humanas. Não queremos desrespeitar ou agredir ninguém; nosso foco é livrar os animais do sofrimento que causamos a eles na busca do bem-estar humano.

Na realidade queremos é defender um ideal de respeito a todos e não agredir ninguém, mas estamos vivendo uma crise de paradigmas e é provável que muitos nos vejam com estranheza e preconceito por conta de uma lenta transformação cultural que ainda não se processou. Saibam que nossa intenção não é agredir e sim ganhar um espaço e defender um ideal de respeito e mesmo dignidade inclusiva aos animais. Tampouco queremos impor uma forma de vida ou visão de mundo. Entendam que nossas ações são por causa dos animais e não por causa do que outras pessoas fazem ou pensam ou deixam de fazer, mas isto nos leva a um confronto inevitável. Este é o começo de um novo caminho, desconhecido ainda por todos, que é a construção de uma nova forma de viver na sociedade e de uma nova forma de conceber a relação do homem com os demais animais e a natureza. Isto pode gerar um conflito entre os que pensam diferente, mas o ideal de libertar os animais do sofrimento nos leva a prosseguir. Estamos neste conflito sendo agentes de uma grande mudança. Nosso único objetivo é a libertação dos animais da crueldade e da exploração humana.

Nota: Caso alguém se sinta diminuído ou comparado a animais, é preciso reforçar que não comparamos os humanos aos animais, primeiro porque somos todos animais e tampouco vemos nisso demérito. Estes exemplos ilustram a resistência que existe diante de novos paradigmas. Tampouco partimos da lógica que dá menos valor a alguns seres ou pessoas, por isto esta comparação não faz parte de nosso discurso. Valorizamos a singularidade de todos na natureza e não partimos da lógica que cataloga hierarquicamente as pessoas ou demais animais. Partimos da ideia de que todos são importantes por serem exatamente como são, animais, humanos ou grupos de pessoas. Não nos reportamos a alguns indivíduos ou grupos como superiores ou inferiores, mais ou menos evoluídos, mais ou menos importantes. Esta ótica de hierarquias entre os seres (animais ou pessoas) é um dos princípios desta lógica de exploração e exclusão que tem engendrado o preconceito e arbitrariedades que têm sido a base das grandes injustiças sociais e também da exploração e crueldade para com os animais. Há violência nestes princípios e não somos adeptos da violência com nenhum ser. Queremos é a harmonia e o bem-estar de todos. Para nós não há pessoas de “segunda categoria”, nem animais com menos valor que justifiquem seu uso ou “descarte”. A mudança de paradigma que se apresenta agora é a ideia de que o homem não só não é o centro de todas as coisas, como tampouco a natureza e o universo foram feitos para nos servirem ou para serem usados por nós. Cabe ainda lembrar que o respeito à natureza faz parte destes princípios e sustentamos os princípios e práticas ecológicas que deem conta da preservação e proteção do meio ambiente como um todo. O paradigma do qual somos porta-vozes nestas manifestações traduz, além do respeito aos (demais) animais, a ideia de que o homem participa do universo como tudo e todos e tudo está conectado entre si harmoniosamente. A postura de dominação que o homem tenta impor a tudo e a todos não somente é eticamente ultrapassada como tem sido responsável pelo grande desequilíbrio que estamos vivendo na natureza e mesmo em outros grandes conflitos da nossa atual civilização. O respeito aos (demais) animais faz parte de outra ética, de outra lógica, de outra forma de nos posicionarmos no universo, como participantes responsáveis e por isto capazes de preservar a natureza e a harmonia que temos afetado neste lugar de dominação. E esta é a tônica de nossas manifestações, porque nos opomos à exploração que domina e subjuga os indefesos.


Eliane Carmanim Lima

Notas escritas a partir de comentários sobre o texto original.

1- Existem grupos pela causa animal ou vegana mais radicais em suas ideologias e práticas, mas nenhum é adepto da violência para com animais ou humanos. E gostaríamos de sugerir que duvidassem de que ações que contenham atos de violência em nome da libertação animal ou de grupos com estas propostas. Isto ou provêm de pequenos grupos ou pessoas isolados e não em nome de grupos organizados que defendem a causa animal e poderiam mesmo vir da má fé daqueles que nos veem como ameaça a seus interesses. Defensores de direitos animais são pacíficos e pregam a não-violência entre todos os seres!Defensores de animais, vegetarianos, defensores de direitos dos animais e veganos não pregam a violência e focam suas ações em construir um mundo de paz e respeito entre todos os seres.

2-Não é verdade que toda a humanidade se alimente de carne desde sempre como foi dito na Assembleia do RS. Há povos que historicamente não se alimentam de carne como os hindus na Índia. Os hindus correspondem a 60 % da população indiana e é uma população milenar que não se alimenta de carne e esta religião e filosofia prega a não-violência para com os animais. É preciso lembrar que a população indiana é superior a um bilhão de habitantes, então 10 % da população indiana corresponde aproximadamente ao total da população brasileira! Não podemos ser etnocêntricos e excluir esta importante fatia da humanidade e outros que já eliminaram a carne da alimentação e dar a dieta não-vegetariana como padrão a ser seguido por todos. Mesmo no ocidente a banalização do abate de animais para consumo é recente na história até pouco tempo, a sociedade ocidental a ingestão de carne era em pequenas quantidades.
 Pedimos que seja respeitada nossa opção que é mais do que uma escolha alimentar como nos faculta a Constituição, assim como o direito de manifestação de acordo com as exigências de nossa consciência. Por isto reforçamos que não é a humanidade toda que se alimenta de carne. E por isto escrevemos esta resposta para que nos compreendam! Apesar de sermos brasileiros e brasileiras com os mesmos direitos dos demais cidadãos e esta ser uma importante questão de consciência para nós, a escolha por não consumir produtos de origem animal, ainda não é atendida pela legislação brasileira, já que ela ainda não nos faculta saber exatamente o que consumimos nos alimentos, cosméticos e outros produtos. Descobrimos a duras penas que muitas vezes estamos ingerindo até mesmo carne em alimentos e bebidas que não apresentam no rótulo a real procedência da matéria prima utilizada na composição de seus componentes.

3-Tampouco é verdade que o consumo de carne esteja aumentando. O que tem aumentado é a população mundial e com isto o número de indivíduos para serem alimentados e por esta razão mais carne é consumida. A proporção de vegetarianos e veganos no mundo está aumentando visível e significativamente no mundo inteiro e mesmo no Estado do Rio Grande do Sul de tradição gaúcha, tradição esta que não é cultuada por todos os segmentos da população gaúcha. Em Porto Alegre há aproximadamente 30 estabelecimentos vegetarianos e veganos e este número cresce rapidamente. Há 20 anos existia tão somente um único restaurante vegetariano e muitas pessoas que não são vegetarianas também têm se aliado à dieta vegetariana e vegana sem verem no vegetarianismo e no veganismo um problema e muito menos um retrocesso!
Assim como outras tradições já foram modificadas muitas outras serão modificadas, porque este argumento da inércia da tradição não é razão suficiente para manter-se o hábito que permite a exploração animal. (Há inúmeros exemplos que não cabem ser levantados aqui de hábitos culturais chamados de “tradição” que já se modificaram). O fato de um hábito ser milenar não é razão suficiente para ser perpetuado e muito menos podemos considerar comer carne como um avanço da civilização. Isto é no mínimo contraditório, porque mostra que é um hábito que remonta o tempo em que não havia a cultura que hoje temos, seja no aspecto tecnológico, como ético. Se é antigo não quer dizer que seja um avanço, ao contrário, mostra que é um hábito do tempo em que a humanidade não tinha muitos recursos tecnológicos e porque não dizer, civilizatórios. Também há um equívoco e desconhecimento sobre a história da alimentação, pois a banalização da carne como alimento é bem mais recente na história da alimentação, pois até a Idade Média o consumo de carne era bastante reduzido.

E não há retrocesso nenhum em deixar de usarmos os animais para consumo, nem para a alimentação. O fato de algumas pessoas quererem excluir o uso de animais na alimentação e em outras áreas de consumo em suas vidas mostra uma mudança cultural que é baseada em outros princípios e mesmo outros conhecimentos a respeito de saúde, degradação ambiental e otimização da terra e água para alimentação de um maior número de pessoas, bem como outra ética. E a pecuária não é a melhor forma de garantir alimentos, saúde e equilíbrio ecológico. Retrocesso seria persistir investindo no uso de animais para alimentação e vestuário e outras áreas do consumo humano, principalmente quando já temos condições de saber que alimentos vegetais alimentam muito mais pessoas degradando muito menos a natureza com um uso muito menor de terra e água, sem contar que garantem a saúde e qualidade de vida daqueles que aderem a esta dieta. E para nós é retrógado o uso indiscriminado dos animais para o consumo humano da forma como é feito por nossa cultura ocidental. Resta dizer que repudiamos totalmente o uso dos animais como forma de “diversão” como é feito nos rodeios e no que nos diz respeito: no “Freio de Ouro”!

Reforço que esta carta foi no sentido de mostrar porque nos opomos a esta cultura e não para nos opormos às pessoas que pensam desta maneira. Não é a estas pessoas que chamamos de retrógadas, mas a cultura que insiste nestes hábitos. Há aqui um apelo cultural muito forte como houve com outros hábitos que foram erradicados de nossa cultura e compreendemos isto. Nossas manifestações são para acelerar a mudança e para que outras pessoas libertem-se do longo condicionamento cultural de que têm sido sujeitos (ou sujeitados). Queremos a libertação dos animais da exploração humana e a liberação do condicionamento humano que prega o uso dos animais no consumo. Nosso objetivo não é agredir, atacar, hostilizar, nem desvalorizar ninguém é apenas defender quem não pode se defender da exploração e do sofrimento.

4- Resta dizer que não se trata de “um grupo de vegetarianos” que protesta contra a Expointer, mas um grupo de pessoas (ou mais de um grupo de pessoas) que se opõem à exploração animal e como somos coerentes não usamos animais também na alimentação. Em nossos grupos há também uma grande diversidade, somos professores, cientistas, psicólogos, médicos, advogados, promotores, estudantes, jornalistas, veterinários, biólogos, servidores públicos, e muitos outros, enfim pessoas conscientes de suas escolhas e atitudes. Somos é um grupo de pessoas que protestam contra a exploração animal, por isto nos tornamos vegetarianos (e veganos) e não o contrário!

5-Hoje em dia existem pessoas que se opõem ao nosso vegetarianismo ético e nos atacam.
Da nossa parte isto é o que menos importa, ir contra pessoas, estas ou aquelas, mesmo que existam entre nós pessoas que acabem em oposição a outras que pensam diferente. Mesmo que nossa causa nos leve a conflitos muito evidentes e às vezes nada pacíficos, ainda assim não é este nosso foco, atacar pessoas ou grupos.
Entre nós há também diferenças e mesmo divergências, como existem em todos os grupos e movimentos, mas temos, entre nós os veg, um mesmo ideal.
Não existe nenhuma diferença entre nós veg e os anti-veg, porque somos todos singulares e diversos e em vários aspectos semelhantes e em outros diferentes e humanamente cheios de idiossincrasias, mas há algo que nos diferencia radicalmente.
Enquanto os anti-veg estão unidos contra nós, nós estamos unidos pelos animais; enquanto os anti-veg existem por que existimos e unem-se para nos atacar, nós existimos porque não aceitamos a exploração e o sofrimento dos animais.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

“A Era dos Direitos Animais e a Nova Revolução Cultural”

Palestra no Fórum Social de 2013 em Porto Alegre
“A Era dos Direitos Animais e a Nova Revolução Cultural”
Palestrante: Eliane Carmanim Lima, formada em psicologia pela Unisinos, sociologia pela UFRGS, especialista em Projetos Sociais e Culturais pela UFRGS e mestrado em sociologia pela UFRGS.
A palestra aborda recente pesquisa arqueológica sobre a história do pensamento sobre os direitos animais e a legislação brasileira e os resultados do estudo que apontam para uma grande mudança cultural no relacionamento dos seres humanos com os (demais) animais.
Na palestra serão apresentados os resultados da pesquisa e os novos paradigmas que emergem já na virada do século e os elementos que sugerem uma grande revolução cultural.
Data : 28/01/2013 às 14 h
Local: auditório do Ministério Público, na Av. Aureliano de Pinto Figueiredo, 80 (Torres gêmeas) em Porto Alegre.
Entrada Livre e aberta ( sem necessidade de inscrição no FSM).

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

terça-feira, 31 de julho de 2012

Animais não são somente outras espécies; eles são outras nações"

E agora um convite a um filme maravilhoso. Se eu defendo direitos animais é por estas razões maravilhosamente apresentadas neste vídeo.

(...) "Animais não são somente outras espécies; eles são outras nações". (...)
A paz não é apenas a abstinência de guerra, é a presença de justiça!
A justiça deve ser cega em relação a raça, cor, religião ou espécie ".

  Philip Wollen
  

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Estamos vivendo uma revolução cultural ?


Artigo relacionado a uma palestra por mim proferida para orientadores educacionais em evento organizado pela AOERGS.
De tempos em tempos a sociedade engendra novos paradigmas culturais. Assim emergiu o ideário abolicionista que entendia que não deveriam existir escravos, depois veio o ideário feminista que pregava direitos iguais a homens e mulheres. Mesmo que a assimilação de novos valores não se dê de forma uniforme na sociedade e que ainda existam grupos que resistam a estes valores de respeito e igual dignidade, os novos paradigmas se impõem aos antigos e passam a ser dominantes. É desta forma que o racismo e sexismo são rejeitados culturalmente, mas houve um tempo em que teorias sustentavam o preconceito e a exclusão social, mesmo nos meios acadêmicos. Esta assimilação de novos conceitos e valores legitima e passa a ser legitimada na Escola e na Universidade. Até que estes valores não ganhem legitimidade científica que é a força que garante o status de verdade de um saber eles são rejeitados nos centros acadêmicos.
Hoje estamos vivendo a emergência de um novo paradigma cultural que é a questão ambiental e neste campo a ideia de um respeito à natureza e mesmo aos animais. Mas ainda estamos vivendo o momento de resistência dos meios oficiais para acolherem estes novos conceitos que surgem na sociedade. Esta temática desponta no terreno jurídico, político e econômico como consequência desta mudança cultural. E este é o curso normal das transformações sociais. Primeiro o paradigma emerge na sociedade com uma demanda de mudança de conduta e visão de mundo. Quando um novo conceito emerge, criam-se palavras e expressões que dão conta desta nova visão e a demanda de uma nova forma de atuar no mundo. Em outros tempos criamos ou produzimos novos sentidos às palavras: feminismo, racismo, exclusão, respeito às diferenças, homoafetivo, etc. Hoje circula a noção de “desenvolvimento sustentável” apontando uma nova conduta do ser humano em relação à natureza, mesmo que a expressão em si sustente ainda a forma antiga de exploração e esgotamento da natureza, porque o valor dado ao desenvolvimento se impõe à ideia de preservação e respeito. Da mesma forma surge outra demanda de respeito aos animais. Esta mudança de paradigma para com os (demais) animais e mesmo para com a natureza já começa a se cristalizar na legislação que sempre acompanha as mudanças sociais. Na Bolívia e Equador animais e natureza passam a serem sujeitos de direito, o que significa o direito, não somente de preservação, mas da defesa no sistema judiciário, como só ocorre com os humanos. O mais significativo é que nesta mudança o que muda é o foco de um antropocentrismo que remonta a Idade Média para um “biocentrismo” que seria o respeito aos animais por um valor intrínseco. E já começa a surgir uma nova expressão que ainda não chegou ao senso comum, que é “especismo” e “anti-especismo”, expressando a nova ideia de libertação também dos animais como foi antes dos negros, das mulheres e de outras minorias.  Aqui eu arrisco dizer que estamos não somente diante de uma mudança cultural, mas de uma revolução. Assim como a Revolução Copernicana deu conta de tirar a Terra do centro do universo, agora damos conta de tirar a espécie humana do centro de nossas ações. Mesmo no Brasil este movimento é claramente percebido com novas leis, movimentos de defesa de animais, manifestos e mesmo uma mudança no consumo é percebida.
Mesmo que o papel do educador não seja o de impor valores éticos cabe a ele acompanhar as mudanças sociais, para compreender este momento e estes novos alunos que chegam à Escola. O educador não pode ser o foco de resistência a estas mudanças nem a estes novos atores sociais que se apresentam no cenário escolar e estar aberto às novas demandas de “sustentabilidade”, respeito às diferenças, e à visão biocêntrica em relação à natureza e demais animais. Assim como hoje a Escola se prepara para atender diferenças de forma a garantir a dignidade a todos, também cabe compreender estas mudanças de valores sociais e suas implicações na Escola e no mundo.
Eliane Carmanim Lima
Porto Alegre, 9 de maio de 2012.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Manifesto para uma Nova Política com Direitos Animais

Isto foi apresentado durante o Fórum Social Temático em 2012 na proposta da Nova Política com Marina Silva e outros participantes.


Manifesto para uma Nova Política com Direitos Animais
Estou aqui representando um movimento: os direitos animais.
Não podemos construir uma nova política sem pensar numa forma de ver e principalmente tratar os animais, os demais animais.
O movimento de defesa dos direitos animais é como os demais movimentos plural e engloba muitos grupos e pessoas. Aqui podemos incluir  pessoas que protegem alguns animais da crueldade até aqueles que buscam não somente proteger animais de maus tratos, mas também aqueles que querem acabar com a exploração animal.
A sociedade constrói suas leis, políticas e a Política a partir de mudanças culturais e agora é o momento, que já pode ser percebido por todos, de uma demanda de mudanças na relação do ser humano com os demais animais.
Neste domingo passado, dia 22 de janeiro de 2012,  houve manifestos em 155 cidades pedindo mudanças na legislação quanto à punição da crueldade com os animais o que é crime no Brasil, mas um crime de menor potencial ofensivo. A sociedade exige que este crime seja encarado de outra forma. Devem ter se reunido umas 40.000 pessoas ou mais, exigindo mudanças na legislação que trata dos animais em todo o Brasil.
Apesar da questão da Justiça e outros problemas envolvendo o sistema judiciário no Brasil ser muito complexa e eu achar que não devamos nos tornar uma sociedade punitiva, o que seria um retrocesso, porque a pena deve cumprir outras funções, é importante ver esta demanda do tipo penal envolvendo os animais.
O que é preciso assimilar e discutir numa nova política é outra forma de tratar os demais animais.
Antigamente nossa sociedade conseguiu, mesmo que ainda não tenha superado, idealizar que a sociedade deveria dar os mesmo direitos a todos e que o racismo deveria ser combatido. Também conseguiu conceber que a discriminação machista ou sexista deveria ser modificada. Recentemente mudamos nossa legislação a cerca do preconceito com os homossexuais e o que está em pauta é o respeito a todos, a não exclusão de grupos, etnias e minorias. Mesmo que algumas destas questões tragam polêmicas e divisões o fato de estarem em pauta e muitas vezes já fazerem parte da legislação mostra que nossa sociedade andou na direção da mudança destes valores.
Da mesma forma temos muitos exemplos mostrando mudanças na relação do ser humano com os demais animais que já são tão evidentes e numerosas que não cabem serem apresentadas aqui. Em Porto Alegre temos inclusive uma secretaria dos direitos animais. Na Espanha uma das mais fortes e antigas tradições culturais, as Touradas, começam a ser proibidas em vários locais. Em São Paulo, sei de 39 cidades onde já houve proibições impedindo rodeios e em várias cidades e estados os circos com animais já são proibidos. Todos têm visto crescer exponencialmente o número de pessoas que por razões éticas se recusam a se alimentar de produtos de que signifiquem o sacrifício de animais. Eu mesmo faço uma pesquisa sobre o assunto e posso dizer que em 80 % destas pessoas a motivação é de cunho ético. E há outros como eu que se recusam a consumir qualquer coisa que implique exploração animal e este número cresce mais aceleradamente ainda.
Mesmo assim nossa relação com os demais animais ainda naturaliza a exploração e muitas vezes a crueldade que não é vista em todos os animais. Mas mesmo assim já há um apelo para que cesse a crueldade. E uma nova política deve englobar esta nova relação do ser humano com os demais animais e a natureza.
Somos todos animais. Não temos mais direitos à liberdade e dignidade que os demais.
Há uma palavra que vem do Direito Ambiental alemão que dá conta deste novo paradigma que deve ser incorporado por esta nova política e pelo menos se ela pretende ser ética e justa deve comportar a noção de DIGNIDADE INCLUSIVA. 
Em 1948 começamos a construir uma agenda de direitos humanos universais:
“Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos”
De 1948 para cá estes direitos têm avançado na direção de direitos mais complexos. Da mesma forma é preciso, partindo desta noção que já existia em 1948 de que seriamos “dotados de razão e consciência”, mesmo que este conceito deva ser aperfeiçoado, proteger os mais vulneráveis,  de qualquer espécie, na direção desta dignidade inclusiva.
 Mesmo que nosso movimento não seja ainda uniforme em seus ideais e propostas devemos começar a construir uma nova agenda de direitos animais:
“Todos os animais nascem livres e iguais em dignidade e direitos”
Lógico que isto é um começo e como eu disse no início, o movimento convive com aqueles que apenas começam a despertar para a solidariedade e/ou respeito para alguns grupos de animais até outras pessoas que já conseguiram se libertar do condicionamento cultural que ainda escraviza, abate, explora e maltrata animais.
Temos um longo trabalho pela frente, mas não podemos mais continuar a nos acharmos o centro do universo e achar que somos a parte mais importante deste mundo!
A natureza não existe para o ser humano, a água não existe para o ser humano e os demais animais não existem para os seres humanos.
Gostaria de terminar com os princípios máximos de nossa Constituição: Solidariedade e Dignidade.
Quanto à solidariedade é preciso sair da crença iluminista ultrapassada da supremacia humana e resgatar nosso papel na natureza e se prestarmos atenção aos demais animais veremos que a solidariedade é uma característica animal e se somos solidários é porque somos animais.
Convido a ampliarmos o conceito de dignidade, não somente na noção de dignidade inclusiva, mas também na ideia de que só há dignidade se nos fazemos dignos tratando a todos com respeito por seu valor intrínseco. Se hoje passamos os problemas socioambientais que vivemos é por partirmos desta lógica de exploração o que faz de nós os grandes predadores da natureza apesar de todo o acúmulo de conhecimento, tecnologia e espiritualidade que nos legam nossos antepassados.
Uma nova política deve partir de outra lógica se pretende ser verdadeiramente nova!
Eliane Carmanim Lima
Porto Alegre, Fórum Social Temático, 25 janeiro de 2012.
@elianeveggie

sábado, 7 de janeiro de 2012

O Sapo pós-moderno

Esta história eu escrevi faz bastante tempo e coloco aqui.(Escrevi em 2007, eu acho que em maio).É apenas um pouco de ironia astrológica.

Aqui vai uma historinha...
...pós-moderna.
Perdoem a irreverência.
Eliane Carmanim Lima

Era uma vez um sapo pós-moderno. Ele vivia tranqüilamente num brejo que já estava poluído. Mas era um sapo globalizado que sonhava em sair do brejo e ganhar outras margens. Um dia em que ele estava sonhando acordado chegou um escorpião também pós-moderno e pediu-lhe para ajudá-lo a atravessar o brejo. O sapo disse que não iria fazê-lo, porque já conhecia aquela história, mas o escorpião insistiu e disse que até já tinha feito muitos anos de análise e mudado muito e que não queria morrer e se ele desse uma ferroada no sapo era o que aconteceria. Ele ainda acrescentou que tinha nestes anos todos aprendido a ser feliz e que agora tudo o que ele queria era ir para o outro lado do pântano.
O sapo sonhador ao ouvir que seu brejo era um pântano se deixou convencer, porque aquilo era viver um pouco o sonho, mas ainda cético reclamou: não estou num bom trânsito atualmente, sei não!
-Qual teu signo perguntou o escorpião:
-Touro, ascendente câncer e lua em peixes!
-Então a gente combina!
O sapo acabou se dando por vencido e começou a travessia com o sapo a tiracolo, mas a lenda se repete como uma maldição e o escorpião no meio do caminho dá uma ferroada no sapo indefeso. O sapo ainda olha para o escorpião entre decepcionado e chocado e diz:
-Mas escorpião, vamos morrer os dois! E a tua análise?
-Não sei, é a minha natureza! Talvez se eu tivesse feito neurolinguística teria me convencido de que eu era diferente ou talvez eu devesse ter continuado com o Prozac, ou quem sabe ainda eu podia ter feito regressão e me livrado desta sina! E tu sapo que já sabias, como caíste nesta?
-É que eu andei me envolvendo com um grupo que militava pela inclusão social e achei que tinhas que ter uma chance!
Estas foram as últimas palavras do sapo antes de sumir já com o veneno entrando na circulação pelo brejo poluído! E o escorpião começa a entrar em pânico e se dá conta tarde demais da asneira que fizera e com isto ele dá conta da fábula que fala de sua natureza: ele sempre se arrepende tarde demais! Seus últimos pensamentos foram para o analista e a raiva que lhe dava o dinheiro gasto nas infindáveis sessões.
Mas como o sapo era pós-moderno, mas ainda não suficientemente globalizado, já tinha tomado antídoto, porque lhe tinham assustado com a possibilidade de morrer de tanta coisa que estava já vacinado e preparado. O veneno não foi mortal e ele só ficou um pouco manco das pernas que lhe permitiria pular e no desespero de se salvar acabou chegando à outra margem que tantas vezes desejou alcançar sempre sem coragem. Sim, ele estava com um mau trânsito e perdeu a capacidade de saltar! Mas acabou agradecendo ao escorpião, porque graças a ele acabou por fim vencendo o medo e chegou a outra margem (que sua natureza mais lenta provavelmente lhe impediria). Lá ele viu que seu brejo era apenas um brejo poluído e que mais adiante havia sim outro pântano maior e mais assustador e por isto muito mais tentador! Passou o resto de sua vida sonhando e esperando que algo lhe permitisse saltar mais além, sempre responsabilizando o escorpião da sua sorte e da sua desgraça. Não conseguiu ir além, limitou-se a justificar-se nas ações dos outros. Morreu infeliz, fez uma tatuagem de um escorpião na perna esquerda para marcar ainda mais a experiência, mas com a lembrança de uma aventura e uma saudade : do friozinho na barriga do dia que se deixou convencer e saltou para o desconhecido, saudades de seu algoz e de seu libertador e daquele momento mágico.
PS: se fosse na antiga história haveria um final do tipo moral da história, mas aqui eu conjeturo:
1) se o sapo também fosse de escorpião a história teria dois finais prováveis, num morrem de fato os dois no meio do lago, porque o sapo escorpião também se ferra! Mas mais provável é que ele levasse o escorpião e o afogasse no meio da viagem, para surpresa do outro. Invariavelmente isto levaria a uma crise profunda até que o sapo conseguisse se libertar das lembranças e transformar-se em um ser já livre do ego.
2) se o sapo fosse sagitariano ou quem sabe capricórnio não teria ido para o brejo e há muito tempo já teria atravessado o pântano e talvez até o oceano. Além disso, não teria aceitado receber ordens de ninguém e teria saído na frente.
3) e se fosse aquariano talvez tivesse aberto caminho para outros sapos irem além também e teria saído num rompante sem esperar ninguém !
Como esta não é uma história astrológica e nunca foi levada em questão a psicologia do sapo, que foi considerado sempre um ator secundário, ele apenas vive um papel passivo, em qualquer versão da história. Talvez seja hora de começarmos a ver a história com outro olhar e recontá-la desde outro ponto de vista. Hoje faríamos um final interativo do tipo: “você decide” e provavelmente acabariam de achar um final feliz e o sapo encontraria no outro lado seu grande amor que o salvaria da maldição de morrer precocemente e sozinho. Estes finais parecem não mudar ao longo dos anos, mas provavelmente ele se apaixonaria por alguém do mesmo sexo e ninguém falaria nada para seguirmos a dinâmica do “politicamente correto”, elemento que não nos permitiríamos na outra história. E se o final escolhido fosse este não haveria princesa que o transformasse e ele seria o grande agente de sua transformação e coragem! Mas com certeza os cientistas sociais começariam a reivindicar ao sapo um papel de relevância na história. Mas no fim a história acabaria mostrando o que sempre mostrou: o escorpião e sua natureza imutáveis como convém a uma fábula e ao mito e particularmente este, ou seja, a moral da história se manteria!
Notas:
Um escorpião me disse uma vez que o escorpião da história não se arrependeria, mas aí eu me lembrei da moral da história e de uma característica dos escorpiões: “eles morrem pela boca”.
Este mesmo escorpião me disse que o capricórnio já teria dragado o pântano e eu me lembrei do que os astrólogos falam de capricórnio, mal compreendido, principalmente pela visão escorpianina, ele poderia é ter feito disto a missão de sua vida, de preferência para salvar o brejo inteiro e aí já o teria atravessado há muito tempo sem precisar de um estímulo plutoniano! (E se mandasse dragar o brejo seria para alcançar o oceano, para não escolher o que é mais fácil simplesmente).
E é claro que quem assina a história é curiosamente capricorniana!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Como eu tenho vários blogs sobre vários assuntos, mas de forma pontual, resolvi fazer um blog mais pessoal com alguns textos meus sobre estes assuntos, estes blogs e outros. Também posso colocar links e outras cositas mas. Só não sei o nome do blog ainda. Este nome eu já tinha pensado antes, mas ele não abrange todos os meus interesses que geralmente se situam aleatoriamente em :
Direitos Animais
Justiça
Direitos do Consumidor
Ecologia
Direito Indígena
Direitos Humanos em geral
Acessibilidade
Além disso :
Sociologia
Zen budismo ou práticas espirituais não religiosas ( zazen, Poder do Agora)
Jidu Krishnamurti
Musica
Natureza
Animais
Silêncio
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Veg vem de Vegetarianismo ou Veganismo e para mim está incluído em direitos animais. Longa história a ser contada depois.
Vamos aguardar eu ter tempo para fazer isto aqui.
Eliane Carmanim Lima
@elianeveggie
www.cadastroveg.org
eliane.veggie@gmail.com